769 Zenbakia 2022-02-16 / 2022-03-16

KOSMOpolita

Educar é transformar

UGARTETXEA ARRIETA, Arantxa

(…) A través de su permanente quehacer transformador de la realidad objetiva, los hombres simultáneamente crean la historia y se hacen seres histórico-sociales. (…) (Pedagogía del oprimido. Siglo XXI de España Editores S.A. Madrid 1970, pg.123)

(...) Por meio de seu trabalho permanente de transformação da realidade objetiva, os homens, simultaneamente criam a história e se fazem seres histórico-sociais. (…)

Quando conheci José Ramón Zubizarreta Oteiza, natural de Algorta e Gudari na guerra civil espanhola de 1936, além de profissional da construção e do canto como tenor, compreendi que nele coexistiam dois pertencimentos: o de Euskal Herria e o do Brasil com suas correspondentes características culturais expressas nas duas línguas que os representam, além do conhecido castelhano. Fiquei surpresa com sua personalidade e optei por sua companhia, ou seja, viver ao seu lado. Desde então, uma transformação após a outra aconteceu comigo. Sua inevitável perda ocorreu em 1999. De 1982 a 1990 morei com ele em Taboão da Serra, Rua dos Jasmins 36, São Paulo-Brasil. Durante esse período, minha irmã morreu primeiro aos 46 anos, e depois minha mãe aos 84, posteriormente experimentando as conseqüências inesperadas desta difícil transformação da raiz. Estive ao lado de meu pai em nosso retorno do Brasil por seis meses, até que ele finalmente descansou.

Nossa casa era uma chácara basca construída por Joxerra em cuja frente um lauburu estava junto com um nome: Gerizpe. Quase todos os domingos freqüentávamos o Euskal Etxea, do qual ele havia sido co-fundador. Um belo dia ele me apresentou a uma vizinha que era professora e naquele momento perguntei a ela sobre Paulo Freire. Ela me disse que ele havia voltado do exílio em 1980 e que lecionava na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Fui procurá-lo e após uma apresentação mútua, ele me concedeu, junto aos alunos de sua classe, a extraordinária oportunidade de assistir às suas aulas, com a seguinte frase: “É uma honra para mim”. Além desse curso, fiz mais três de pós-graduação, considerando que foi uma oportunidade única na minha vida profissional.


Desde então, minha transformação pessoal ocorreu como uma nova reconstrução da vida, em que perceber que nada e ninguém é neutro para melhor ou para pior, foi o ponto de partida necessário. Tomei consciência do meu jeito de ser pessoal e profissional, desta vez integrado como nunca os tinha experimentado antes. É isso que tem a pedagogia freireana quando nos deixamos tocar por ela. Continuo a deixar-me sensibilizar pela cativante sabedoria deste singular professor, que tive o privilégio de conhecer dentro e fora da sala de aula, à volta de uma mesa e hoje na sua palavra escrita onde a memória da experiência pedagógica vivida faz que eu me sensibilize  novamente.

Na época, Vanessa era uma adolescente colegial, estilizada, com cabelos longos, distinta, postura responsável e uma boa aluna que me chamava a atenção pelo seu correto comportamento, sempre cúmplice do irmão Diego no ambiente familiar que Joxerra e eu desfrutávamos na casa de Izilda e Orival (seus pais), também localizada em Taboão da Serra.

Arantxa:
Vanessa, quando pensei que queria falar com você, há duas palavras que me vêm à mente como se fossem uma só educar/transformar. Eu apreciaria se você se apresentasse.

Vanessa:
Sou muitas Vanessas. Sou a Vanessa, parceira do Eduardo. Sou a Vanessa, mãe do Enzo e da Manuela. Sou a Vanessa, professora de língua estrangeira para adolescentes. Sou a Vanessa, colecionadora de memórias em forma de fotos e textos. Sou a Vanessa, amante do artesanato e esportes. Na realidade, eu poderia estar toda a conversa me apresentando dessa forma não tão convencional, mas é apenas uma maneira de começar a falar sobre o que você me propõe.

Oficialmente apresento como: Vanessa Clemente de Souza Ingegneri, bacharel e licenciada em Letras Português e Espanhol, pela Universidade Pública de São Paulo. Especializada no ensino de espanhol para brasileiros. Trabalho como professora há 21 anos, sendo 16 deles no ensino básico de escolas particulares de São Paulo, sempre com adolescentes. Também tenho experiência como escritora de livros didáticos.

Arantxa:
Poderíamos começar, se você quiser, abordando o que a palavra transformação nos sugere.

Vanessa:
Queiramos ou não, passaremos por inúmeras transformações ao longo de nossas vidas. Fisicamente, as mudanças são notáveis ​​e ninguém vai negá-las. No entanto, psicologicamente, você pode encontrar alguém que lhe diga que sempre foi de uma forma ou de outra e que nunca mudará. Por outro lado, outros anseiam por transformações, mas se sentem inseguros e não querem se arriscar. E para outros parece inviável não estar continuamente se transformando. Eu pertenço ao último grupo. De todas as formas, no meu ponto de vista, mesmo que nos custe, é impossível não se transformar. As experiências que a vida nos proporciona produzem mudanças mais ou menos profundas que dependem da própria experiência e também de como permitimos que ela nos toque e transforme. Resumindo: não vamos morrer da mesma forma que nascemos, de maneira alguma. Somos uma obra inacabada e precisamos dessa construção eterna. Isso é o que me parece o mais bonito da vida.

Começo este diálogo falando sobre o mais óbvio, isto é, o que se vê a olho nu: as características da "juventude" versus as da "velhice". Nos dizem, por exemplo, que beleza e diversão pertencem à primeira. Como queremos ser "bonitos" e "divertir-nos", isso simplesmente não nos permite envelhecer em paz (coloquei os dois termos entre aspas, pois são muito subjetivos). A publicidade nos esmaga com cânones absurdos e são milhares os procedimentos estéticos que procuram atrasar as características naturais da idade, como se fosse possível parar o relógio ou fazer desaparecer do calendário algumas páginas ...

Mas... quem meteu na nossa cabeça que esta transformação física não é boa? Há cerca de dois anos, me senti profundamente identificada com as árvores. Às vezes estou dirigindo e estaciono o carro para curtir uma dessas árvores floridas aqui em São Paulo. Uma semana depois, essa mesma árvore está sem flores e continua tão bonita com seus galhos de diferentes espessuras e formatos. Com isso quero dizer que essas árvores me ensinam que existe beleza em todas as estações da vida.

Falando agora das transformações interiores (que muitas vezes são afetadas pelo exterior e vice-versa), para estas, não há força da natureza que as estampe no rosto. Você tem que se permitir e querer mostrá-las. Muitas vezes você tem até que procurá-las, inclusive.

Há momentos mais marcados por certas transformações, como quando saí da casa dos meus pais, quando me formei, quando meus dois filhos nasceram ou quando enfrentei o câncer. Porém, o contato com algumas pessoas, ser professor, praticar um esporte, me transformaram de uma forma mais sutil e igualmente importante. Sempre quero me transformar porque a transformação é vida.

Arantxa:
Seguindo a prática pedagógica de Paulo Freire na alfabetização de adultos, gostaria de escolher como Palavras Geradoras do seu “universo vocabular” (terminologia Freireana) as palavras escritas: Mudança, Construção e Cânones. Quero que você expresse quais palavras vêm à sua mente quando você pronuncia Mudança, quando você pronuncia Construção e quando pronuncia Cânones.

Vanessa:
Coincidentemente, os três Cs[1] são palavras muito poderosas e estão intimamente relacionadas. Eles me parecem elementos fundamentais na história que escrevemos. Quando falo em mudança, penso em algo muito positivo. No entanto, é um desafio mudar. Não é fácil, porque muitas vezes temos que quebrar os cânones que existiam, talvez séculos atrás, e já não traduzem mais a realidade (talvez alguns nunca o tenham feito, mas alguém os impôs). Daí a importância de reavaliar se eles nos servem e de promover mudanças tão importantes e isso é uma grande aventura, porque temos que sair da nossa zona de conforto e nadar contra a corrente. Começa de dentro, sabe? Algo nos incomoda e nos diz que não está certo e o que devemos fazer? Nós ignoramos? Espero que não.

Peço sua permissão para inserir uma nova palavra na lista: reflexão. Ou seja, estarmos nos questionando o tempo todo. Não aceitar simplesmente porque nos dizem que deve ser assim, que sempre foi de uma certa forma, que você tem que se encaixar ali, que você tem que ser, que você tem que estar, etc ... Se ouvirmos esse “barulho”, temos que mudar o que não está certo e, então, entraremos no processo contínuo de construção de quem somos e queremos ser.

Arantxa:
Vejo que com os três Cs mais a palavra geradora reflexão, você elaborou o que poderíamos considerar o início do tema a ser tratado a partir do seu próprio “universo vocabular”. Vou tentar dividi-lo em palavras geradoras muito específicas que descobri em sua apresentação:

Mudança: positiva e desafiadora.
Cânones: séculos, realidade, imposição, reavaliação.
Reflexão: questionar-se sempre, ouvir, barulho.
Construção: zona de conforto, contra a corrente, interior, incômodo, ignorar, processo contínuo.

A partir deste “universo vocabular” e tendo em conta o que geraram as chamadas palavras geradoras, seria bom que começássemos a falar da educação como mudança, dos cânones que a constituem na atualidade, da reflexão a que nos remete e a possível construção contínua da mesma.

Vanessa:
A educação é um tema polêmico, embora possa não parecer. Primeiro, porque todos acreditamos que entendemos profundamente do assunto. E a verdade é que não. É um assunto delicado como a medicina, onde ninguém ousa dizer que é especialista se não estudou para isso. As consequências da educação não são apenas físicas, mas também da alma. Por isso, está na boca de todos os políticos, pelo menos daqueles da América do Sul que eu saiba. As pessoas sabem que a educação lhes proporcionará melhores oportunidades financeiras, mas mais do que isso (e isso não está claro para todos), a educação nos faz entender mais e melhor o mundo que nos rodeia.

Como professora, a cada aula que dou, a cada material que preparo, levo em consideração o tipo de reflexão que quero proporcionar aos meus alunos. Veja que super poder eu tenho em minhas mãos! Porém, cada aluno é um mundo diferente e traz consigo uma experiência única e, entre todos os presentes, estamos construindo pequenas reflexões que Deus sabe quais os impactos que podem ter. Ou seja, venho para a aula com um plano, mas com todos esses anos que estou nessa carreira, sei que muitas vezes o caminho pelo qual meu grupo me leva é diferente e isso é maravilhoso.

Este foi um mural que montamos na minha sala depois da uma
seqüência didática sobre o Velázquez.

Quando falamos sobre os cânones da educação, aqui vemos um muito claro. Há muita burocracia neste universo: conteúdos que devemos cumprir, documentos que preencher, corpos que domar. Permitir que deixemos que a personalidade de cada grupo e de cada um nos leve aonde quiser é um problema para as instituições de ensino que têm de apresentar para os “especialistas” em educação que estamos cumprindo o nosso papel.

No ano passado, quando começou a reclusão pela pandemia, todos nós, envolvidos na educação, sofremos muito. As perdas para os alunos foram grandes, mas, acredite, apesar de ter aprendido muitos recursos tecnológicos, perdi o que mais importa para mim: o contato direto com meus educandos e educandas.

Depois da primeira aula online que dei, quando fechei a tela, comecei a chorar. Eu me senti muito distante do aspecto humano da educação! Em suas casas, os alunos não abriam suas câmeras, eu só via janelinhas pretas. Não havia mais interação. Perdi o olhar interessado, o olhar questionador, o olhar de dúvida. Me perdi. Só reforcei concretamente o que todos nós sabemos: a sala de aula não existe sem o jogo entre o professor/ professora e educando/educanda.

Ensinar a distância foi o maior desafio profissional que já enfrentei. Sou muito aberta às novas tecnologias como recursos em sala de aula, mas a maior ferramenta sempre serão os professores e as professoras, a partir de um recurso inicial: a contribuição dos educandos e das educandas. E assim nos alimentamos um ao outro.

Vimos como a tecnologia foi fundamental para mantermos algum contato neste período, mas a ausência do encontro físico tirou o protagonismo dos alunos. Eles se trancaram em suas casas em todos os sentidos. Acho que muitos fatores influenciaram para que isso acontecesse, mas com a distância ficou mais difícil para eles quererem estar no palco.

Os alunos escreveram uma palavra sobre a obra do Velázquez que fosse mais
significativa pra eles.

Eu, particularmente, acredito que a escola deve mudar sua organização interna, mas definitivamente não deve ser à distância.

Resumindo e retomando as palavras geradoras de nossa fala: a escola precisa mudar sua estrutura para permitir o verdadeiro protagonismo dos alunos não só em um belo discurso, mas também na prática, porque educar é construir em conjunto. Um lindo trabalho reflexivo em grupo. Há que se quebrar alguns cânones antigos e outros devem ser mantidos.

Arantxa:
Em suas palavras, percebo um desafio positivo relacionado à mudança, que nada mais é do que garantir o protagonismo dos educandos e educandas na busca do conhecimento como parte essencial dele.

Construir juntos exige questionar o próprio conforto, às vezes nadar contra a corrente, vivenciar desconfortos dentro e fora do ambiente educacional ou simplesmente ignorar a realidade do que está acontecendo. Essa construção grupal de que você está me falando é um autêntico processo de transformação contínua.

A sala de aula nas palavras de Paulo Freire é o “primeiro texto a ser lido”, a meu ver, isto significa que qualquer encontro entre educadores e educandos independentemente do espaço em que se dê, levando em consideração que a família e toda a sociedade inteira são participantes e protagonistas no trabalho educativo de forma mais ou menos consciente, direta ou indiretamente. Isso foi o que eu vivenciei naquelas aulas com o professor Paulo Freire:

(…) Ahora, ya nadie educa a nadie, así como tampoco nadie se educa a sí mismo, los hombres se educan en comunión, mediatizados por el mundo. (…) (Pedagogía del oprimido. Siglo XXI de España Editores, S.A. Madrid 1970, pg. 90.)

(...) Agora, já ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo. (…)

Daí a complexidade que você menciona na hora de combinar, avaliar e programar. Uma construção e reconstrução permanente efetivamente.

Refletir sobre o poder do ensino é algo que os governos levam em consideração. Talvez nós, como participantes, não analisemos tanto o quanto manipulamos o conhecimento para um lado ou para o outro, sabendo que nada é neutro e sem nos perguntarmos que aspectos da vida potencializamos com nosso ensino e aprendizagem concretamente. Dito de forma mais concisa a favor do quê ou quem / contra o quê ou quem praticamos ensino / educação.

“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido
é virar o opressor.”

Os cânones, embora necessários na construção em grupo, são inevitavelmente cheios de ruídos. A pergunta reflexiva anterior com sua respectiva resposta, intencionalmente aterrissa na burocracia que favorece o necessário domar. Nem tudo é barulho ou domesticado naturalmente. Aqui é onde entra o saber discernir para onde sim e para onde não, sabendo que nada e nem ninguém é absolutamente ruidoso e domado e ninguém é neutro.

Acredito que a pandemia tenha sido a explicitação mundial mais real sobre o fato de quem pode participar como protagonista da história e de quem não tem a menor opção. O trágico espetáculo mundial escancara para quem quiser ver, como você muito bem diz, com o olhar da alma e poder mudar a cara da educação e mais especificamente da escola.

Arantxa:
Vanessa, por que você escolheu ser professora de espanhol para brasileiros?

Vanessa:
Como mencionei antes, estamos em construção. Repare que quando optei por estudar Letras, pensava em ser professora de literatura brasileira e portuguesa. No entanto, a faculdade me permitiu escolher mais de uma habilitação. Por isso, escolhi estudar espanhol e literatura espanhola e latino-americana. Resumindo a história, nunca na minha vida trabalhei com português, seja língua ou literatura. Sempre fui professora de espanhol. Por isso, quero chamar a atenção para a importância de dar opções aos nossos educandos e educandas. Às vezes pensamos que sabemos o que queremos, mas no meio do caminho algo pode nos surpreender. A verdade é que não me vejo como professora de português.

Ser professora de língua estrangeira significa muito para mim. Significa apresentar aos meus alunos outras realidades, ampliar sua visão de mundo, quebrar estereótipos, pois também acredito que conhecer outras culturas nos ajuda a aprender sobre nós mesmos e que aprender outras culturas nos faz refletir sobre a nossa. É por isso que eu adoro ser professora de língua estrangeira. Adoro ver como essa cortina se abre diante de nossos olhos e acompanha esse processo de amadurecimento. Em suma, ser professora para mim é acompanhar a jornada.

Especificamente, ser professora de espanhol foi obra do destino. Tenho família espanhola e sempre me identifiquei com esse universo que hoje se estende a por toda a América Hispânica.

Agora peço sua permissão para fazer um pequeno comentário sobre o que você mencionou antes e que você pode relacionar com tudo o que acabei de dizer sobre minha escolha pessoal de ser professora. Na verdade, com a minha formação inicial, poderia ser editora, revisora, tradutora, mas nunca duvidei de que queria ser professora de língua.

Está claro que a língua é um organismo vivo e é um reflexo da sociedade que a fala. Os termos adotados vão se ajustando gradativamente às necessidades emergentes, há palavras que já não se usam, outras são inventadas, outras que haviam sido esquecidas ressurgem, outras pegamos emprestadas ... Como falantes de uma língua, estamos sempre refletindo sobre qual é o termo adequado para uma determinada situação. Escolhemos com lupa, embora alguns possam acreditar que seja involuntário.

Gostaria de propor uma reflexão sobre o verbo aprender e a sua regência preposicional. Em espanhol, podemos usar após o verbo, a preposição ‘de’ ou ‘com’, maneiras que aparentemente nos levariam ao mesmo lugar. No entanto, essa escolha ingênua é muito reveladora. Ao aprender ‘de’, pressupõe-se que existe um ponto de partida de onde o conhecimento emana. Quando se aprende ‘com’, não se está sozinho. O conhecimento se estabelece junto e flui entre os participantes.

Este altar montou se pra o dia de mortos. O Eduardo fez a estrutura de madeira.
Colocamos nos retratos dos “mortos imortalizados” que estudamos no curso.
O paninho vermelho de crochê foi feito pela minha vó.

Arantxa:
O exemplo é muito gráfico. Na verdade, tanto o ‘de’ quanto o ‘para’ (que indica a quem se dirige), poderíamos dizer que estão implícitos no ‘com’. Há sempre uma comunidade de partida e uma comunidade de chegada e é isso que ele explica claramente. Esta reflexão guarda aquela qualidade pedagógica inerente ao saber em que a sabedoria e o saber não são propriedade exclusiva de ninguém.

A leitura de sua resposta me levou diretamente a uma frase de Paulo Freire (como poderia ser de outra forma, já que estamos no Brasil):

(...) Agora mesmo, no momento exato em que escrevo sobre isto, quer dizer, sobre as relações pensar, fazer, escrever, ler, pensamento, linguagem, realidade, experimento a solidariedade entre esses diversos momentos, a total impossibilidade de separá-los, de dicotomizá-los.(...) (PROFESSORA SIM tia NÃO cartas a quem ousa ensinar. Ed. Olho d’Água. São Paulo 1997, pg. 7).

Levando em consideração a situação atual da sociedade brasileira, o que você gostaria de nos dizer? Qual é o seu sonho?

Vanessa:
A verdade é que fico muito triste quando penso no quão potente é a sociedade brasileira e o caminho que estamos percorrendo. Vejo uma sociedade polarizada e isso não me parece uma coisa boa. Politicamente falando, não acho que haja um salvador da pátria e, de alguma forma, as pessoas esperam por alguém que vai ser perfeito e resolver todos os problemas. Os políticos se aproveitam, como em todos os lugares, e jogam este jogo muito bem. Assim, vence a melhor propaganda.

Confesso que às vezes me afasto das notícias e me reduzo ao meu reduto pessoal e profissional para me proteger e continuar acreditando no que sou capaz de fazer. Tive experiências intensas nos últimos anos e a verdade é que vejo a vida com outros olhos. Tenho um olhar mais profundo e empático do que nunca. Também acho que isso tem a ver com os anos que coleciono aqui.

Meu sonho é ter sabedoria para poder aproveitar cada momento com a intensidade que ele merece e não perder tempo com bobagens. Quero estar com os meus em momentos imersos em risadas e cheios de saúde mental e física. Todo o resto é conseqüência. Por isso, sempre tento colocar as coisas em perspectiva.

Eu desejo uma sociedade que tenha mais discernimento sobre suas escolhas, que seja mais justa e a educação tem muito a ver com tudo isso.

Arantxa:
Acredito que somos chamados e chamadas a CRESCER, biologicamente, psicologicamente, culturalmente, historicamente, na educação, na política, na estética, na ética ...

(…) Que o saber tem tudo a ver com crescer, tem. Mas é preciso, absolutamente preciso, que o saber de minorias dominantes não proíba, não asfixie, não castre o crescer das imensas maiorias dominadas. (PROFESSORA SIM, tia NÃO: cartas a quem ousa ensinar. Ed. Olho d’Água. São Paulo 1997, pg. 127).

Muito grata Vanessa, um grande abraço cheio de saudade brasileira.

Vanessa:
Eu que agradeço esta linda oportunidade que me fez organizar as minhas idéias e refletir sobre minha prática pedagógica. Deixo meu e-mail para os que queiram continuar esta conversa: vanessa.ingegneri@gmail.com

Vanessa, Eduardo, Manuela y Enzo.


[1] A entrevista foi realizada em espanhol e estas palavras são, respectivamente, cambio, construcción e cánones. Por isso, a referência aos 3 Cs.


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