Aproximando-me
* Portugués
Arantxa Ugartetxea Arrieta

Eu estou aqui como membro da "Sociedade de Estudos Bascos" Eusko Ikaskuntza. Instituição que teve a honra de receber Nita em Novembro de 99, quando do lançamento do livro de Paulo "Pedagogia da Autonomia", traduzido para o basco com o título de "Autonomiaren Pedagogia". Esta Instituição faz parte do mundo acadêmico e cultural europeu com a característica freireana da não-neutralidade, isto é, a favor da integração social da cultura basca dentro de um estilo de trabalho estritamente científico e plural.

"Aproximando-me" é o título de meu artigo neste livro que hoje sai à luz. Escrevi-o em castelhano e foi traduzido para o português para sua publicação. Lendo-o, agora, uma sensação de beleza e enriquecimento invadem todo o meu ser, sentindo-me mais próxima de Paulo e de todos vocês.

Quero dizer-lhes que cada vez que ouço ou leio Nita é como se a presença do Professor se prolongasse no tempo e espaço, suavizando sua ausência como uma contínua e nova presença.

Cheguei em São Paulo, em Julho de 1982, respondendo a um chamado de amor e paixão. José Ramón de Zubizarreta, meu esposo, morava em Taboão da Serra, numa casa em estilo basco, construída por ele. Seus melhores e mais profundos sentimentos de liberdade tiveram a cor basco-brasileira. Os dois tínhamos partido, ele primeiro eu depois, de uma cultura peculiar "a basca" para sermos acolhidos por uma cultura diferente "a brasileira". Creio que desde esse momento o basco e o brasileiro fizeram parte de nossas formas de ser como uma unidade indissolúvel e plural que até hoje, no meu caso em especial, experimento com alegría.

Mas eu... já me estava aproximando deste Brasil incrível sem sabê-lo. A pessoa que há mais ou menos 30 anos despertou em mim uma inquietação transformadora, ao conhecer em terra colombiana seu método de alfabetização de adultos, foi o extraordinario mestre e amigo que nos reúne aquí a todos: O PROFESSOR PAULO FREIRE. Há 30 anos comecei a aproximar-me desta pedagogía e no transcurso deste tempo não dexei de fazê-lo, pois este sentir e emoção freireanos vivem em mim como uma força real e transformadora.


Nita Freire e Arantxa Ugartetxea.

Hoje, novamente, graças a Nita e a todos vôces, esta aproximação é para mim mais profunda e global, mais concreta e universal, impregnada dessa extraordinária presença brasileira de Paulo, apesar de sua tão sentida ausência. Nesta universidade, tive a honra de ser sua aluna, participando como ouvinte nos cursos de pós-graduação e, desde então, quando falo sobre ele, leio seus livros ou escrevo, este espaço singular faz parte contextual dessa leitura sobre seu pensamento pedagógico que me aproxima a esse "ser mais" do qual ele tanto falava.

Desejo apresentar-me como aluna do PROFESSOR PAULO FREIRE porque em suas aulas, nas aulas desta universidade e em horas curriculares, aprendí a vivenciar de maneira especial que, dentro de um horário e programas curriculares, é possivel e real viver o processo da própria transformação na busca do conhecimento, quando se descobre com a ajuda de um bom mestre o verdadeiro sentido do humano. Esse sentido do humano de que tão bem nos fala o biólogo chileno Humberto Maturana e que eu tive a sorte de experimentar naquelas aulas simplesmente extraordinárias, onde sempre acontecía que: entrava e saia de forma diferente, pois algo me iluminava de maneira especial, interpelava e liberava... algo acontecía.

A relação professor-aluna, aluno era vivida em nossa mais genuína condição humana, a de pessoas em busca do conhecimento, desterrando qualquer manifestação autoritária, ao mesmo tempo que a autoridade do professor e dos alunos e alunas permanecía sempre respeitada. Desde então, esta indissolúvel relação professor, professora-aluno, aluna, tento vivê-la dentro das múltiplas limitações pessoais, estruturais e sociais, como o tesouro mais precioso em qualquer espaço educacional.

O direito à palavra neste caminhar compartilhando saberes, era uma realidade palpável naquelas aulas. Nunca me sentí diminuída, silenciada ou desvalorizada. A leitura pessoal contextualizada que o PROFESSOR practicava em classe levaram-me em mais de uma ocasião a liberar essa palavra que permanecía silenciosa em mim e, às vezes, silenciada. Em alguns momentos teve o extraordinário gesto pedagógico de fazer-me falar em basco para satisfazer sua curiosidade e compartilhar na classe a singularidade de minha lingua materna. Hoje, percebo que esse gesto criava em mim laços relacionais entre as duas culturas e colocava no lugar que lhe corresponde nosso idioma euskara, que tantas dificuldades vem superando para poder viver neste mundo como uma realidade imprescindível dentro do patrimônio da cultura basca e universal.


Por tudo isso, posso dizer hoje, recordando o pensador e psiquiatra colombiano Luis Carlos Restrepo, profeta da ternura em meio a tanta violência, que eu nas aulas do PROFESSOR PAULO FREIRE, experimentei a ternura do conhecimento. E assim, pouco a pouco fuí me aproximando desta pedagogía transformadora que hoje tenho a enorme alegría de compartilhar com vocês neste ato de homenagem a Paulo, com motivo da apresentação do livro " A PEDAGOGIA DA LIBERTAÇÃO EM PAULO FREIRE".

Todas e todos que aquí estamos partimos de nossas concretíssimas realidades pessoais, sociais e culturais para celebrar hoje este momento excepcional. Fomos convocados pelo saber e pela emoção que soube compartilhar conosco um PROFESOR brasileiro que sentimos como amigo. E, fazendo minhas as palavras do psiquiatra y amigo brasileiro, Alfredo Soeiro que se encontra hoje aquí, sinto que a realidade é sempre emocional. Por isso hoje minha emoção de aluna se engrandece e ao querer expressar-me melhor busco as palavras do PROFESSOR que Nita pôs em minhas mãos na "Pedagogía da indignação" (pág.76), para uma vez mais lendo-as emocionar-me:

"E é exatamente esta vontade de ser nós mesmos e este desejo forte, alentados pelo sonho possível, pela UTOPIA tão necessária quanto viável, que marcham os progressistas e as progressistas destas Terras de América para a concretude, a realização dos sonhos dos Vascos, de Quiroga e Tupac, dos Bolívares, dos San Martins, dos Sandinos, dos Tiradentes, dos Ches, dos Romeros.

O futuro é dos povos e não dos impérios."

São Paulo, abril de 1992.

¡QUE SAUDADE PROFESSOR!


Arantxa Ugartetxea Arrieta, pedagoga

Euskonews & Media 142.zbk (2001/11/2-9)


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